Em pleno século XXI, índio quer mais que apito, quer respeito

518 anos após a colonização, povos tradicionais superam o preconceito e aos poucos começam a ocupar espaços acadêmicos. Em algumas áreas, el...

518 anos após a colonização, povos tradicionais superam o preconceito e aos poucos começam a ocupar espaços acadêmicos. Em algumas áreas, eles já assumiram o protagonismo de pesquisas voltadas aos povos indígenas. 


Poran Potiguara, Rayanne Baré e Uran Suruí fazem parte da geração de índios pesquisadores, mestres e doutores (foto: Arquivo pessoal)
Muito além da visão romântica do índio descrito por José de Alencar, o índio brasileiro não é apenas o selvagem, de cabelo escorrido, nu, amazônico, com arco e flecha em mãos. Passaram-se 518 anos desde que nativos brasileiros foram vistos assim por Pedro Álvares Cabral. E, mesmo depois de cinco séculos, essa imagem ficou congelada no imaginário brasileiro. No entanto, indígenas saíram das aldeias, entraram nas universidades e têm contribuído – com muita competência, diga-se de passagem – na ciência, em pesquisas em diversas áreas. Aos poucos, eles têm conquistado espaço e integram a nova geração de mestres e doutores do país. No século XXI, índio quer mais que apito, quer respeito. 

Para Poran Potiguara, enquanto outras minorias lutam diretamente por sobrevivência, indígenas precisamos, antes, provar a existência. Aos 28 anos, e um dos nomes indígenas mais respeitados da Universidade de Brasília (UnB), Poran se formou com destaque no curso de Engenharia Florestal. Na UnB, além de estudar, o potiguara ainda participa de atividades de pesquisa, extensão, e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com o objetivo de devolver, de alguma forma, o conhecimento ao seu povo.

Em uma de suas pesquisas, o especialista analisou o uso medicinal e terapêutico do rapé, um tipo de tabaco misturado com raízes e cascas de árvores. Em outro projeto, ainda em fase inicial, vai aperfeiçoar a produção de carvão nas aldeias na Paraíba. "É uma forma de dizer pra Universidade que nós fazemos pesquisas e que a gente está aqui não apenas para pegar o diploma", comenta.

Ativista da educação indígena desde os 15 anos, o potiguara é uma das lideranças indígenas mais promissoras de seu povo. E mesmo acostumado com a militância, e dentro da primeira universidade a receber índios por sistema de cotas no Brasil e reconhecer que existe algum esforço de professores para também aprender com os povos indígenas, Poran conta que a academia ainda está longe de ser verdadeiramente inclusiva.

"As universidades, e eu falo a nível de Brasil, não estão preparados para receber o diferente, e aí não é só o indígena, é também o negro, o quilombola, o deficiente, é o diferente", diz. "Existe uma visão preconceituosa e romântica do índio, nu, na Amazônia, isolado. É preciso acabar com essa visão. O preconceito no Brasil é algo que está enraizado na questão colonizadora", diz o indígena.

Indígena guerreira e pesquisadora


Assim como Poran, a enfermeira Rayanne Cristine Máximo França, de 26 anos, do povo Baré, no Amazonas, é uma sobrevivente do choque cultural do mundo acadêmico. Graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e agora mestranda em Sociedade, Desenvolvimento e Cooperação Internacional, ela conta que só conheceu o significado das palavras discriminação, racismo e preconceito dentro da universidade. "Eu me formei em um processo de superação, tinha sempre que mostrar que eu podia fazer melhor, mostrar que nós, povos indígenas também somos capazes de fazer qualquer coisa", diz. 

E são. Rayanne, que saiu de sua aldeia ao longo do Rio Negro quando ainda era menina, conversou com a reportagem do Correio enquanto participava de uma reunião internacional de lideranças em Nova York, a convite da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Rayanne também é uma das fundadoras do Ambulatório de Saúde Indígena no Hospital Universitário de Brasília (HUB). "Tenho como uma das minhas maiores conquistas, a implementação de um serviço baseado em linhas de cuidado que respeitem a cultura, a identidade, o processo saúde-doença dentro de um centro urbano, fugindo da lógica hospitalocêntrica e respeitando o indígena na sua integralidade, meu orgulho". Como enfermeira, indígena, guerreira, ela almeja, um dia, levar práticas de saúde indígena a outros hospitais. 

No campo da linguística, indígenas assumiram o protagonismo das pesquisas da área e integram a nova geração de mestres e doutores linguistas do país. Uran Anderson Suruí, 33 anos, do povo Paiter-Suruí, de Rondônia, faz parte da geração de pesquisadores indígenas com contribuições importantes. Formado pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e mestrando na UnB no programa de pós-graduação em lingüística, ele trabalha em um projeto de elaboração do primeiro dicionário do Suruí-Paitér, em versão bilingue Suruí-Paiter-Português, Português-Suruí-Paitér. 


“O dicionário será uma grande contribuição para o registro de partes e aspectos importantes do Suruí-Paiter, por se tratar também de um tipo de material que guarda a língua da forma em que foi registrada em um tempo determinado, servindo como fonte de conhecimento para os jovens e para as futuras gerações”, explica.

Sabedoria diversa

Por causa da diversidade de povos, existe dificuldade em implantar a educação indígena no Brasil. Há mais de 900 mil índios vivendo aqui. Divididos entre 305 etnias, eles falam ao menos 274 línguas, de acordo com o Caderno Temático: Populações Indígenas, estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base no Censo de 2010. A pesquisa, divulgada em 2016, mostra que o Brasil é um dos países com maior diversidade sociocultural do planeta.

"A questão da educação indígena é que não adianta universalizar. São diversos povos, com culturas muito diferentes. O que é costume para um povo, pode ser um choque para o outro. Por isso é importante reconhecer essa diferença”, comenta Poran Potiguara.

A Lei nº 11.645, promulgada em março de 2008, determina a inclusão nos currículos escolares da Educação Básica pública e privada o ensino da História e Culturas Afro-brasileiras e Indígenas. Dez anos depois, pode-se dizer que houve um avanço tímido na discussão em sala de aula, pautada em uma visão que foge da história pré-colônia do Brasil. "Se estamos falando de formação da sociedade brasileira e de identidade nacional, então é preciso entender que essa visão deve ser baseada nas sociodiversidades – e entender que, mesmo entre os indígenas, essa diversidade se mantém. Por isso, não existe um 'índio genérico' ou 'padrão' que possa ser representado”, explica o pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Edson Souza. 

Para além do desconhecimento da verdadeira história dos povos indígenas do Brasil, o professor questiona ainda as crianças vestidas com saiotes de papel verde e gritos, de “homenagem” ao Dia do Índio. “Quais serão suas atitudes quando se depararem com os índios reais? Quais as consequências da reprodução dessas desinformações para o reconhecimento das diversidades étnicas indígenas existentes no nosso país?”, questiona.

Uma escola de Águas Claras promoveu um encontro entre alunos e índios da etnia Walê Fulni-ô. A visita faz parte do projeto pedagógico que há quatro anos tem o propósito de aproximar as crianças da real cultura indígena, ampliar o conhecimento, ensinar sobre o respeito ao próximo e diversidade.

A coordenadora de ensino do Infantil 3, Nathália Damacena, reforça que os ensinamentos sobre o tema começam em sala de aula. "Falamos sobre hábitos alimentares, ervas medicinais, como as crianças indígenas estudam e com o que eles brincam de acordo com a faixa etária", explica. O cacique Walé Fulni-ô defende a relevância da população brasileira levar o conhecimento a outras gerações. "Essa aproximação quebra muitos preconceitos e as crianças podem conhecer como vivemos e valorizar a nossa cultura", afirma. 


O que é índio 

'Índio' é qualquer membro de uma comunidade indígena, reconhecido por ela como tal. Já 'comunidade indígena' seria toda comunidade fundada em relações de parentesco ou vizinhança entre seus membros, que mantém laços histórico-culturais com as organizações sociais indígenas pré-colombianas.


Hellen Leite - Correio Brasiliense

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