O professor e pesquisador Percinaldo Toscano publicou o artigo "A identidade da cidade que caminha descalça", no qual defende que a história de Guarabira deve ser construída a partir da memória de seu povo, valorizando personagens, tradições e experiências que marcaram a formação do município.
No texto, o autor afirma que a identidade de uma cidade vai além das obras e do desenvolvimento urbano, estando presente na cultura, nos costumes e nas pessoas que ajudaram a construir sua história. Como exemplo, relembra figuras populares que fazem parte da memória afetiva dos guarabirenses e reforça a importância de preservar esse patrimônio histórico e cultural.
Confira o artigo na íntegra:
A identidade da cidade que caminha
descalça – Por Percinaldo Toscano
Não se escreve a história de uma cidade, somente, homologando como verdadeiros os fatos e feitos permitidos pela conveniência das elites: dos abastados, dos detentores de poder político e econômico. Temos outras faces e outros olhares que falam muito sobre a formação geográfica, comportamental, religiosa, política e social de uma cidade.
Muito me fortalece o pensamento do cronista Gonzaga Rodrigues, quando verbaliza dizendo que cidades não são apenas as construídas pelo planejamento arquitetônico, ou as que são ornadas por viadutos encaracolados de concreto, passagens submersas ou forte apelo causado pela iluminação moderna. Portanto, “cidade diz respeito a coisas que pulsam”, que palpitam no peito, como pensa o cronista. Cidade é território geográfico intrinsicamente ligado a identidade histórica e social de seus habitantes.
Nessa dicotomia entre as coisas miúdas pertinentes aos humanos e as obras em concreto moderno, cidade como Rio de Janeiro, cultiva os dois aspectos, ao tempo em que tece uma urbe com avenidas asfaltadas, aeroportos e samba, carnaval e mar, propicia o lugar para a Bossa Nova ou uma Bossa Nova criada para o lugar. Em Salvador os santos reinam todos os dias, são baianas, pescadores, sincretismo e misticismo autêntico. Cheiros e sabores encantadores e não apenas o brilhante Elevador Lacerda. Sobre Recife, o que sobrepõe as belas e geniais pontes, é a força cultural do povo, através do frevo e do maracatu.
Diante essas afirmações propositais, convido o caro leitor para realizar um passeio otimista, divagando a procurar uma cidade banhada por histórias, exumando valores humanos ora esquecidos, para contemplar ruas que ainda não se desfiguraram diante o apelo do moderno.
Seja no Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou Guarabira, faz-se necessário referendar a existência humana, banhada de sortilégios e seus conflitos existenciais. É fundamental ver a cidade caminhando por suas próprias ruas, sobre a pele macia dos calçamentos centenários, becos e jardins públicos, reconhecendo seus cantos e orações, menestréis, poetas, contadores de histórias, jogadores, feirantes, políticos, juízes, professores, médicos e muitos outros profissionais liberais.
Se uma cidade só existe pela existência de um povo, por sua gente, é preciso e legítimo lembrar que em Guarabira viveram pessoas como Babau, vascaíno boêmio; de Pai Herói, servidor municipal que em sonhos e delírios confabulava a esperança de ser político; de Chôla, Tirbutino, Curinga, do craque de futebol Zé Alverga; da adorável e folclórica Salete Cobra, Seu Satilo (era assim que as crianças o chamavam) vendedor de picolés; Cassimiro e Seu China nas portarias dos cinemas São José e São Luiz; Zé Lagoa com seu indispensável guarda-chuva; de Seu Joquinha e Seu Jocão do cinema da Rua da Barra, (hoje Getúlio Vargas); do Beco de Candeia onde estão perpetuadas as imagens de Zenobinho, Chico Pedrosa, Ednaldo Pereira, Zenóbio Toscano, Ronaldo Cunha Lima, Osmar de Aquino, Maria Eulália Cantalice entre muitos que construíram nossa história.
A beleza e a autonomia de uma cidade também se expressam pelo valor de seus habitantes, sejam dos mais graduados àqueles que dormem nos berços das praças sob o véu das algarobas. A cidade, decerto, respira as vozes poéticas dos seres loucos, dos altruístas, dos sóbrios, dos embriagados, dos sábios e dos administradores.
Adorável Guarabira, terra de tantas mulheres e homens bons.
Guarabira, 26 de julho de 2026.


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