Saúde mental: brasileiros passam mais de nove horas por dia na internet; hiperconectividade pode dificultar descanso

Foto: Créditos / Adobe Stock. 


O celular está sempre por perto, as notificações chegam durante o trabalho, no almoço, à noite e até mesmo nos momentos reservados para descansar. Para muitas pessoas, estar conectado deixou de ser apenas uma facilidade da vida moderna e passou a representar uma cobrança constante para responder, produzir, acompanhar e estar disponível. Entretanto, esse excesso de conexão pode transformar até mesmo o tempo de descanso em mais um período de estímulos e demandas. 

 

Dados do DataReportal apontam que os brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, sendo mais de três horas e meia dedicadas às redes sociais. Quando a conexão ultrapassa o uso recreativo ou profissional e passa a ocupar praticamente todos os espaços do cotidiano, a disponibilidade deixa de ser uma escolha e passa a ser encarada como obrigação. 

 

A psicóloga da Hapvida Leidiane Fernandes explica que não estabelecer limites pode levar a pessoa a colocar constantemente as necessidades dos outros à frente das próprias. Com isso, o cérebro permanece em um estado contínuo de alerta, dificultando o desligamento mesmo quando as atividades do dia já terminaram. “Quando não conseguimos estabelecer limites e nos permitimos estar disponíveis o tempo todo, isso pode gerar sobrecarga e desgaste emocional”, relata. 

 

Consequências – Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), realizada em parceria com universidades europeias, aponta uma relação entre o uso excessivo de telas e o aumento de problemas como ansiedade, depressão, irritabilidade e insônia.  

 

Para Leidiane, a conectividade exagerada pode ocasionar um estado constante de alerta, favorecendo sintomas de ansiedade em algumas pessoas. “É importante ressaltar que a hiperconectividade, isoladamente, não significa que uma pessoa desenvolverá um transtorno de ansiedade, mas pode ser um fator que contribui para a manutenção ou agravamento de sintomas”, pontua a psicóloga. 

 

A especialista também reitera que existe o risco de a pessoa confundir ansiedade com produtividade e interpretar o estado permanente de alerta como disposição para trabalhar. 

 

Ela explica que isso acontece porque algumas pessoas passam a interpretar a necessidade de estar sempre fazendo alguma coisa, respondendo rapidamente ou antecipando problemas como produtividade. Porém, ela destaca que estar constantemente ocupado não significa necessariamente estar sendo produtivo. Muitas vezes, esse estado permanente de alerta está relacionado à ansiedade e à dificuldade de desacelerar, fazendo a pessoa sentir que precisa estar sempre produzindo para se sentir útil ou tranquila. 

 

Descanso  – A psicóloga reforça que é importante criar limites que o celular não vai estabelecer sozinho. Segundo ela, o descanso é necessário para a nossa mente e para o nosso corpo, e que é necessário momentos em que a mente não esteja respondendo a demandas para conseguir se recuperar. 

 

“Se o expediente terminou, mas continuamos respondendo mensagens, verificando notificações ou pensando nas demandas do trabalho, o cérebro não recebe um sinal claro de encerramento. Por isso, é importante estabelecer horários para finalizar as atividades, silenciar notificações e, quando possível, separar o celular de trabalho dos momentos de descanso”, observa. 

 

Além disso, Leidiane fala que criar um ritual de transição também pode ajudar, como tomar um banho, trocar de roupa, fazer uma caminhada ou simplesmente guardar os instrumentos de trabalho. Esses sinais ajudam a mente a compreender que aquele momento terminou e que agora é hora de descansar. 

 

Porém, para quem está acostumado a preencher todos os espaços do dia, reaprender a descansar pode exigir prática. Sendo necessário compreender que descanso não é perda de tempo e que não precisamos estar produzindo ou sendo úteis o tempo inteiro. 

 

“Esse processo envolve começar com pequenas pausas, identificar quais atividades realmente proporcionam prazer e recuperação e aprender a tolerar o desconforto que pode surgir quando não estamos ocupados. Descansar também é uma forma de cuidado. A nossa mente precisa desses espaços para se recuperar e funcionar de maneira saudável”, relata a especialista. (*) Ascom


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