Fatos, Retratos e Memórias: "Eu lembro" - Por Percinaldo Toscano

Foto: Reprodução / Percinaldo Toscano. 
É muito comum nas minhas conversas com amigos contemporâneos falar das coisas boas e ruins que passamos ou que vimos outros passarem. Resolvi buscar na minha memória e na memória coletiva, fatos e pessoas que escreveram páginas da história de Guarabira. Fazer isso me faz bem e, quem sabe, até contribui no fortalecimento da memória.

Quem lembra de Dona Maria Doca na sua barraca, em frente a madeireira José Camilo e que ao lado tinha um amontoado de pedras que por lá ficou por mais de 40 anos, vendia café, tapioca e carne guisada com macaxeira, ficando aberta até altas horas da noite.

Cassimiro, porteiro do Cine São José, de propriedade de Benedito Targino, cumpria rigorosamente sua função todas as noites, da mesma forma que Seu China, porteiro do Cine São Luiz. Seu Satilo, vestindo branco, percorria seu roteiro imutável todas as tardes, empurrando seu carrinho azul para vender picolé pelas ruas da cidade. 

Quem não se recorda do professor Vicentão e da professora Maria Eulália?  Ele, alto, cabelos brancos, com fala límpida nos ensinava a língua estrangeira, ela, de voz miúda, se comportava rigorosa nos ensinamentos da língua pátria.

Qual guarabirense nunca trocou uma prosa com Chico do Baita? Era sapateiro e contador de causos referente a sua militância na Liga Camponesa, além de pornofônico. 

Recordo também de Dona Joana de Miquila, senhora trabalhadora e responsável por criar numerosa prole, vendendo milho e pamonha na praça João Pessoa. Chico do campo do Guarabira, mais do que zelador do estádio, um patrimônio cultural na história do Guarabira Esporte Clube. Durante as partidas de futebol, lembro das senhoras, entre elas Dona Margarida, vendendo água num pote de barro, servida friinha num brilhante copo de alumínio. Vendia-se ainda cocada, milho, laranja descascada na maquininha de manivela e as saborosas geladas de coco, morango e maracujá.

Como eram bons os fins de tarde jogando sinuca no salão de Seu Domingos, o “véi caceta”, instalado na praça da matriz de Nossa Senhora da Luz que, além de proprietário, consertava guarda chuvas e sombrinhas. Foi lá que descobri o valor das bolas do bilhar! 

Falando em leitura, recordo da banca de revista de Sr. Luiz e seu filho Assis, único espaço da cidade onde podíamos comprar jornais, periódicos e revistas. Particularmente me recordo do jornal “O Pasquim”, que através do humor e linguagem solta combatia a ditadura instalada no Brasil em 1964.

As frases, os hinos proclamados e as serestas protagonizadas por Lula Bolinha e outros menestréis encantavam as noites frias e desertas da nossa urbe brejeira. Seu Expedito Santos, o “Expedito da Rádio”, com sua emissora de auto falantes, instalados ao longo da avenida D. Pedro II, sonorizava os espaços públicos com a execução do “Cisne Branco” e tantas outras belas canções para o deleite da juventude;

Dos carnavais memoráveis do Clube Recreativo Guarabirense não esqueço jamais. Os foliões vibrando e cantando as belas marchinhas de Chiquinha Gonzaga, que em voz alta cantavam “Ô abre alas que eu quero passar”. Neste contexto lembro de Bento Souto, Otávio Paiva e Zé de Bento e seus irmãos que cuidavam divinamente do sodalício.

Sorrateiramente me vem na memória o Corso realizado em volta da Av. D. Pedro II, com seus carros alegóricos, preferencialmente os jipes, que sem as capotas exibiam pessoas fantasiadas, felizes com seu protagonismo, dançando e cantando a plenos pulmões. O alfaiate Anísio Paixão, muito marcante em nosso carnaval, ansiosamente esperado pelo público, dançava com sua boneca de pano entre os foliões, parecendo flutuar sobre nuvens densas de amor e alegria; Lembro bem de Seu Zezé da Rua da Baixinha, revivendo os bons tempos dos grandes faroestes, incorporando e fazendo trafegar pelas ruas grandes atores como Anthony Quinn, John Wayne, Franco Nero, Durango Kid e o temido e invencível Django, que fora por inúmeras vezes, sucesso de bilheteria nos cinemas guarabirenses. Sobre o nosso carnaval ainda há muito a ser dito e em outra oportunidade trataremos com o devido esmero.

O destino nos trouxe muitas surpresas, como a vinda de Curimã na década de 40 para jogar em Guarabira. Neste momento o placar é o menos importante e o que nos chama atenção é que Curimã não voltou mais para sua casa, ficando por aqui até o final dos seus dias e como servidor municipal, exercia na praça sua função dando milho aos pombos.

É certo que tantos outros protagonistas de nossa história poderiam compor esse elenco de emblemáticos seres humanos, mas essa ausência não impede nosso respeito e consideração, pois muitos ainda trafegam pelas ruas e praças de nossa cidade, basta apenas exercer um olhar mais atento. Estas são algumas lembranças que trago de minha infância e juventude, quem lembra mais?

Por Percinaldo Toscano 

  • Professor de História

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