Quem, realmente, foi Tiradentes?

A percepção de heroísmo em torno da figura de Tiradentes é reflexo de uma campanha conduzida após a Proclamação da República, já que os republicanos viam a necessidade da figura de um herói que aproximasse o movimento ao povo brasileiro. 

ARTIGO - O feriado de 21 de abril neste ano quase passa despercebido: caiu no sábado. Mas quem realmente passa quase sem ser notado é a figura homenageada neste dia: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O fato é que, depois de rapidamente estudarmos sobre sua participação na Inconfidência Mineira e sua morte dramática decorrente disso, poucos de nós voltamos a olhar para esse personagem mítico da história brasileira. 

Estátua de Tiradentes, em Curitiba (Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo). 
Forçando a memória podemos lembrar que Tiradentes lutou pela independência do Brasil e deu sua vida por isso. Era republicano e a favor da abolição da escravidão. Foi o único entre os inconfidentes que foi condenado à morte porque era mais pobre que seus companheiros. Foi enforcado e esquartejado para que servisse de lição àqueles que ousassem criticar ou questionar o domínio da Coroa Portuguesa. Será que foi isso mesmo? 

Algumas coisas sim, outras nem tanto. Essa percepção de heroísmo em torno da figura de Tiradentes em muito é reflexo de uma campanha conduzida pelos republicanos após a Proclamação da República, em 1889, já que eles viam a necessidade da figura de um herói que aproximasse o movimento ao povo brasileiro. Em meados do século XIX, quando o Brasil ainda era uma monarquia, ele já era uma figura identificada como herói entre os primeiros clubes republicanos e foi naturalmente elevado ao posto de herói da nação quando o sudeste passou a ter cada vez mais importância política e econômica no Brasil. 

Até mesmo a aparência de Joaquim José da Silva Xavier foi modificada para que houvesse um apelo maior com o público. Segundo o professor de História da UnB (Universidadde de Brasília) Marcos Aurélio de Paula Pereira, as imagens de Tiradentes como um homem barbudo, quase semelhante à imagem de Jesus Cristo, foram criadas por autores a partir do século XIX. “Ele foi convertido de patriota ao ‘Cristo na multidão’. As pinturas de Francisco Aurélio de Figueiredo (Martírio de Tiradentes, 1893); de Décio Villares (Tiradentes, 1890) e o quadro de Pedro Américo (Tiradentes esquartejado, 1893), ajudaram a disseminar essa visão”. Historiadores afirmam que provavelmente ele foi executado com o cabelo e a barba raspados.

Independência 
Tiradentes era um homem do seu tempo e de sua sociedade, lembra Luiz Carlos Villalta, professor de História da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “Não era um santo, tinha suas paixões, era namorador, tinha ideias próprias do tempo dele que eram associadas à sua condição de vida”. 

Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746. Aos 11 anos ficou órfão de pai e mãe e foi criado pelo padrinho, um cirurgião com quem aprendeu noções de medicina. Trabalhou como tropeiro, mascate, minerador e dentista e, com pouco mais de 30 anos, alcançou o posto de Alferes da Sexta Companhia do Regimento de Cavalaria Regular da Capitania de Minas Gerais.

Como militar, tomou gosto pelos ideais da revolução americana, que inspirou o movimento inconfidente no qual desempenhou um papel fundamental. Segundo a Biblioteca Nacional, a constituição americana era seu livro de bolso. Tiradentes não tinha formação escolar, porém, era assíduo frequentador de livrarias no Rio de Janeiro. “Era um homem inteligente, perspicaz, que gostava de ler”, afirma Villalta. 

A conspiração de Minas teve como estopim o anúncio da criação de um mecanismo fiscal que garantiria o pagamento do Quinto, tributo que garantia a Portugal 20% em impostos sobre todo o minério extraído nas terras da Coroa. Isso ocorreu no final de 1788 e início de 1789, o que, segundo notou o historiador Kenneth Maxwell, foi antes mesmo da Revolução Francesa de 1789. “[A inconfiência mineira] foi o primeiro movimento anticolonial, republicano e constitucionalista das Américas depois do sucesso da revolução das colônias inglesas na América do Norte”, disse Maxwell em entrevista ao Globo em 2013. 

O professor Villalta explica que Tiradentes não lutou pela independência do Brasil, mas sim pela autonomia dos territórios de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, porque naquela época não havia uma ideia de Brasil, de brasileiro. 

“Ele queria sobretudo uma coisa: que os homens de origem europeia nascidos no Brasil participassem do governo. Tiradentes tinha uma ideia muito clara dos mecanismos do monopólio comercial metropolitano que dava direito exclusivo à Portugal de comercializar com o Brasil, da alta tributação, da apropriação da coisa pública para fins privados. Mas ele e os demais inconfidentes queriam acabar com o domínio português para que eles mesmos fizessem isso”, diz o professor da UFMG. 

Escravidão 
A abolição da escravidão não era consenso entre os inconfidentes. De acordo com Pereira, os líderes do movimento, dos quais muito eram proprietários de escravos, não propuseram a imediata abolição da escravidão. Haviam proposto, entretanto, a libertação dos negros que lutassem ao seu lado no caso de um conflito com as forças de Portugal.

Sobre outros assunto tampouco havia consenso: não se sabia qual seria o final da revolta, qual seria o sistema de governo e que tipo de república se instauraria. “O que se é mais debatido hoje em dia na historiografia, é que [a Inconfidência Mineira] se tratou de um movimento que propunha lutar contra as injustiças (praticadas pelos detentores dos postos de Comando da Coroa portuguesa) que quebravam os pactos tradicionais do Antigo Regime e oprimiam a população”, afirma Pereira. 

Morte 
Tiradentes não era o cérebro por trás do movimento inconfidente, mas era seu principal interlocutor. Ele sabia se comunicar e provavelmente foi esse um dos fatores que mais pesaram em sua execução. Falava naturalmente com os nobres, com os escravos, com soldados e prostitutas, uma característica que não era encontrada em seus companheiros de levante. Assim, segundo conta Pereira, ele levou a ideia de revolução para o público além das fronteiras da elite, onde o movimento surgiu. 

Alguns meses se passaram entre o anúncio da criação da derrama até que a Coroa Portuguesa descobrisse a conspiração mineira. O delator da inconfidência, Silvério dos Reis, foi pessoalmente fazer a denúncia ao governador das Minas Gerais, Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, o visconde de Barbacena, conforme conta Maxwell na introdução do “Livro de Tiradentes” (ed. Companhia das Letras).

Tiradentes e os demais inconfidentes foram presos e condenados à pena de morte, mas somente ele foi executado. O julgamento, segundo Villalta, foi injusto. “Naquela época, a justiça não era para todos. Ela tratava diferentemente quem era diferente. Foi um teatro montado para causar efeito no público”, observa. 

Tiradentes foi enforcado, decapitado e esquartejado em 21 de abril de 1792, de forma a dar o exemplo para quem almejasse fazer novas inconfidências, revoltas e conjurações. “Sua execução teve esse caráter. Sua morada, foi amaldiçoada e sua descendência também”, afirma Pereira. Partes de seu corpo foram expostas ao longo do caminho do Rio de janeiro até Vila Rica (atualmente Ouro Preto), onde sua cabeça foi exposta no lugar que hoje é a praça que leva seu nome. 

Sua condenação, de acordo com Pereira, foi resultado de suas crenças e ideias políticas inaceitáveis aos poderosos da época, mas principalmente, por querer divulgar e buscar insistentemente converter outros aos seus propósitos. 

“Por isso ele foi considerado um mártir”, conclui. 

Feriado nacional 
A primeira instituição do feriado de 21 de abril, dia da morte de Joaquim José da Silva Xavier, foi escrita em um decreto de 14 de janeiro de 1890, durante o governo provisório da República. A imagem de Tiradentes como herói nacional foi reforçada com a construção de estátuas em sua homenagem em frente ao prédio da então câmara federal no Rio de Janeiro em 1926. Anos mais tarde, em 1965, quando o país já estava sob o regime da ditadura militar, Tiradentes foi declarado patrono cívico da nação brasileira.


Gazeta do Povo - Isabella Mayer de Moura

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