Entrevistado
por Rodrigo Amaral da Rocha para o Billboard, Dado fala da sua decisão de
escrever esse livro agora. Confira.
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| ₢ Divulgação. |
Dado lança livro para ficar por dentro da Legião Urbana.
“Onze
de outubro de 1996, 2h15. Toca o telefone na minha cabeceira. Do outro lado da
linha, o doutor Saul me dava a notícia que, infelizmente, eu já esperava: o
Renato estava morto. Atordoado, desliguei o telefone, acordei Fernanda e liguei
pro Rafael, empresário da banda e grande amigo”.
Assim
começa Memórias de um Legionário, livro de Dado Villa-Lobos sobre as memórias
do guitarrista desde o seu nascimento, em Bruxelas, na Bélgica; passando pela
adolescência na capital federal, Brasília, onde conheceu o rock ‘n’ roll e
formou a Legião Urbana; até o fim desta, após a morte de Renato Russo.
Não
se trata de um livro biográfico, mas, sim, de relatos do integrante de uma das
bandas mais importantes da história do rock nacional. Com a ajuda dos
historiadores Felipe Demier e Romulo Mattos, Dado dá sua versão sobre a Legião
e resgata da memória momentos tensos, engraçados e, acima de tudo, únicos sobre
tudo o que envolve a banda e um dos compositores mais emblemáticos da música
popular brasileira.
Por
que a decisão de escrever esse livro agora?
Foi
uma sugestão de um amigo, o Felipe Demier, que é historiador e escreve o livro
junto comigo e o Romulo Mattos. Ele me sugeriu soltar essas memórias. Eu estava
esperando passar as questões judiciais envolvendo a banda. Eu fui juntando os
cacos, alguns fragmentos. Pra mim foi muito importante. E foi em um momento certo: já plantei várias
árvores, marquei vários gols no Maracanã, e agora tenho o livro.
Muitos
livros já foram feitos sobre a Legião Urbana e, inclusive, são citados neste. O
que Memórias De Um Legionário tem de especial?
É
o foco interno, o foco de alguém que estava lá dentro. É a minha visão. Mas é
claro que é importante ter visões diferentes, como no livro do Dapieve, as
entrevistas na revista Bizz…
Sobre
a liberação do uso do nome do Legião Urbana, está tudo certo? Dá vontade de
lançar coisa nova?
Está
tudo certo, sim, mas a questão da marca continua na mão do menino [Giuliano
Manfredini, filho do Renato Russo]. A gente foi autorizado a poder subir no
palco e usar o nome da nossa banda. Quando a gente fez aquele tributo com o
Wagner Moura na MTV [2012], os herdeiros não deixaram a gente usar o nome
‘Legião Urbana’. Seria importante para o público saber que aquilo era uma homenagem
à banda, ao repertório, à obra e marca da Legião. Hoje isso acabou, mas ele
ainda é o detentor de uma marca. E essas questões todas me deixam com certa
preguiça de mobilizar em função de ver o que existe na gravadora.. E a gravadora agora foi comprada pela
Universal, que trabalha com outro formato… Eu não sei. Se depender de mim, eu
não faço nada.
Com
o livro não teve nenhum problema?
Não.
Quando havia alguma coisa, assim, mais “picante”, aquilo já havia sido dito
antes.
E
a história das biografias. Qual o seu posicionamento?
[risos]
Acho que agora vai ter um monte de biografia da Legião Urbana. Mas minha
posição é a seguinte: quando a biografia é séria e o biógrafo é um cara
confiável, que está realmente querendo contar a história, eu apoio. E eu adoro
biografia, já li várias sobre artistas e escritores, e aprendi muito,
culturalmente, pra entender o que está acontecendo em determinada época, o
contexto histórico.
Você
diz que estava lendo Life, biografia do Keith Richards…
Por
acaso, no momento em que o Felipe me fez a sugestão eu estava lendo Life. É
fascinante. Foi nesse mesmo modelo, de você ter uma visão interna da dinâmica
dessa banda.
No
livro você fala abertamente sobre drogas, principalmente na época em que você
estava começando e o rock crescendo em Brasília. Você acha que foi importante
de alguma forma para todo esse contexto?
Foi
um momento de democratização do Brasil. O que estava acontecendo em Brasília
acontecia em São Paulo, no Rio, em Porto Alegre, Belo Horizonte; o país inteiro
estava nessa mesma energia de querer transformar o país, após uma ditadura de
24 anos. A garotada estava podendo se expressar do jeito que gostariam de se
expressar.
Em
uma passagem do livro, é recuperada uma entrevista sua na década de 1990, onde
você diz que o Planet Hemp era uma das poucas bandas politizadas do país. E
hoje?
Eu
não vejo os artistas se envolvendo com política. Acho que política hoje virou
um terreno quase maldito, não querem nem chegar perto. O que eu e meus amigos
discutíamos é que naquele momento, no começo dos anos 1980, a gente vivia ainda
uma ditadura, o cerceamento do Estado, um Estado ainda repressor. E hoje em dia
a gente vive um Estado de pleno direito, e tem a rede, a internet, as redes
sociais e tudo, mas, paradoxalmente, vivemos um dos momentos mais caretas,
reacionário. Talvez falte política.
E
o rock brasileiro, também está careta?
Acho
que está tudo muito careta, né. Não sei o que seria o rock brasileiro hoje, não
vejo uma cena. Existem canais que você consegue ver alguma coisa de
interessante, mas cena mesmo eu não vejo.
A
indústria fonográfica tem relação com isso?
A
indústria tem a sua parcela de comprometimento com isso, porque ela está meio
dilacerada, não sabemos muito bem o que acontece, o que eles pretendem. Então
agora estão fazendo contrato pra levar percentual de show dos artistas, quer
dizer, estão tentando ver como fazer dinheiro. O digital agora está tomando uma
forma e uma força grande de dividendos para eles; talvez comece a reestruturar
o mercado. Está diferente, mas não quer dizer que esteja pior, as pessoas ainda
estão tentando achar o caminho.
E
o Dado hoje, está ativo musicalmente?
Tenho
feito trilha sonora para filme e televisão, tenho feito shows do Passo do
Colapso, tenho o programa de TV no canal Bis com vários artistas convidados
diferentes. E a gente está reativando o selo RockIt, em formato digital.
Acabamos de lançar o segundo disco solo do Marcelo Callado. E pretendamos
também lançar outros discos. E, em breve, o catálogo todo da RockIt. Mas chegar
e produzir artistas, não. Minha ideia é o ano que vem gravar um novo disco. (Billboard/Rodrigo Amaral da Rocha)

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