Para falarmos de cultura da paz, temos que entender a fundo o
fenômeno da violência.
A violência é um fenômeno complexo, multicausal, que é o
resultado da interação de muitos fatores, sendo que, entender cada um deles é
fundamental para que se construam políticas públicas eficientes, que se
proponham a enfrentar todos os aspectos que envolvem este problema. Percebe-se
que é um desafio interdisciplinar e intersetorial.
No mundo todo, a violência está entre as principais causas de
morte em pessoas na faixa etária de 15 a 44 anos e há estatísticas que já
comprovam que no Brasil uma pessoa morre a cada 4 horas, vitimada por projétil
de arma de fogo, sendo também de grande relevância as sem mortes por acidentes
automotivos.
É um fenômeno importante e crescente de saúde pública no mundo
inteiro, que traz sérias implicações para indivíduos, famílias, comunidades e
países e gera enormes efeitos prejudiciais no setor saúde.
Mas como pensar em cultura da paz diante de tantas
discrepâncias socioeconômicas e culturais? Milhões de pessoas ainda permanecem
analfabetas, milhões vivem com menos de 1 dólar por dia, milhões não têm água
potável, o meio ambiente é degradado cotidianamente. Essas são algumas citações
de situações de indiferença com o outro, entre tantos outros exemplos do dia a
dia.
Pensar em cultura da paz é pensar em compartilhamento, como
também em valores e princípios; inicia-se a partir de uma atitude pessoal que
pode refletir em diversos seguimentos da vida, no meio ambiente, na sociedade e
na saúde coletiva. Os princípios apontam na direção de repensar valores,
crenças e atitudes, os quais devem servir de estímulo para o processo de
transformação do indivíduo, das instituições e das relações sociais. É questão
de respeitar o outro, de tentar manter relações mais afetivas e amorosas,
deixar de lado as críticas e os julgamentos. É muito mais que atitude, é estilo
de vida, é construção de paz a partir de cada um.
Esta violência não permanece apenas nas ruas ou em lugares
marcados para tal. Ela já adentra todos os setores sociais, de trabalho e de
assistência. Invade também os serviços de saúde. É um inquilinato forçado que
provoca atordoamento nos profissionais de saúde, justamente pela falta de saber
lidar com este indesejado morador.
Os profissionais de saúde, muitas vezes demonstram resistência
para atender pessoas em situação de violência. Talvez por insegurança para
lidar com a complexidade da questão. Pensamos que a formação universitária
ainda não dá um suporte adequado para essa prática, muito embora já
vislumbremos algumas mudanças.
Cuidar de pessoas vítimas de violência, não é só levar o
lenimento para as feridas físicas. Entendemos que os profissionais de saúde
estão preparados para cuidar de ossos quebrados, dos ferimentos causados por
diversos tipos de armas, mas geralmente não conseguem cuidar da pessoa na
totalidade de seu sofrimento. A vítima de violência desenvolve uma gama de
sentimentos: medo, vergonha, impotência, entre tantos outros. O desafio da
Saúde é escapar dessa trama do medo, do silêncio e da omissão para buscar uma
ética do cuidado que reafirme o valor da defesa da vida.
É importante que os profissionais de saúde reconheçam a
violência sofrida e a violência perpetrada e a partir daí identifiquem seus
próprios sentimentos no atendimento e use-os para se aperfeiçoarem como
pessoas. Há 10 ou 15 anos atrás seria impossível falar de cultura da paz aos
profissionais de saúde. Não se poderia levantar uma discussão se a paz ainda
reinava nos corredores silenciosos dos hospitais e em todos os ambientes de
saúde. Mas a violência adentrou aos serviços de saúde. Precisamos buscar e
resgatar o forte vínculo que existe entre a saúde e a paz.
Associar a paz com a ausência de conflitos é negar a
diversidade. Conflitos entre pessoas, grupos e organizações são inevitáveis.
Esta diversidade é geradora de conflitos e, paradoxalmente, os conflitos são
essenciais para o aprimoramento das relações humanas e para a construção de uma
sociedade mais justa, igualitária, democrática e plural. O conflito impulsiona
a raciocinar caminhos para o entendimento.
Enquanto profissional, reconhecer a saúde como um dos setores
intrinsecamente ligado a esta problemática pode ajudar a entender que é
importante se integrar a uma rede, onde cada um tece o seu pedaço, para depois
juntar aos outros e formar algo mais grandioso. Entender definitivamente que a
violência é também um problema de saúde, mas não só de saúde, mas também
problema de justiça, de direitos humanos, de segurança pública, de bem estar
social. Nenhum seguimento da sociedade está isento de responsabilidade.
Percebe-se que os profissionais de estratégia de saúde da
família estão no meio dessa violência, sofrendo a violência e também sendo
violentos. Os profissionais precisam aprender a se conectarem com outros
seguimentos da sociedade (justiça, conselhos tutelares, ONGS, associações),
para juntos poderem transformar esta cultura avassaladora da violência em cultura
de paz.
Os serviços de saúde podem e devem contribuir para criar um
ambiente que acolha as diferenças e os conflitos como parte integrante da
elaboração dos processos de trabalho na equipe, assim como na construção de uma
saúde pública forte, de qualidade, com o compromisso de defesa da vida e da
paz.
Necessariamente precisamos estimular a produção de vínculos e
de espaços de comunicação, rodas de conversa, onde a escuta deva ser
qualificada e por demais generosa.
Muito embora Mahatma Gandhi afirmasse que “não existem
caminhos da paz, a própria paz é o caminho” há anos atrás, a humanidade ainda
não se encontrou na paz. Continuamos em nossa pequenez de buscar ainda o
caminho.
De acordo com publicações da UNESCO, a cultura da paz está
intrinsecamente relacionada à prevenção e a resolução não violenta de conflitos
e fundamenta-se nos princípios de tolerância, solidariedade, respeito à vida,
aos direitos individuais e ao pluralismo.
É válido lembrar que para se construir uma sociedade mais
humanizada é fundamental que cada pessoa comece por si própria, fazendo a sua
parte por meio de mudanças de atitude, valores e comportamentos que visem a
construção de um mundo mais justo e melhor de se viver, que sirva como legado
para as futuras gerações.
todos juntos possam trabalhar as possibilidades de transformação de uma cultura orientada pela desconfiança, pela competição, pelo uso abusivo do poder em uma cultura de paz, diálogo e responsabilidade compartilhados.
Fernanda Macedo de Castro
Graduada em Enfermagem
Coordenadora de Atenção Básica em Saúde de Guarabira-PB

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