Bolsonaro diz que Moro só pensa em ego e nega interferência na PF

Fala do presidente Bolsonaro acontece após graves acusações contra ele, feitas por Moro em sua saída do Ministério da Justiça. Foto: Evaristo Sá / AFP / Getty Imagens. 
O presidente Jair Bolsonaro acusou o ex-ministro Sergio Moro de “só ter compromisso com o próprio ego” e negou qualquer tentativa de interferência na Polícia Federal, classificando como infundadas as denúncias de Moro. O agora ex-ministro da Justiça anunciou sua saída do governo nesta manhã fazendo graves acusações contra Bolsonaro, entre elas a de querer interferir politicamente na Polícia Federal.

“Uma coisa é você admirar uma pessoa, a outra é conviver com ela, trabalhar com ela. Hoje pela manhã, disse a alguns parlamentares ‘vocês conhecerão a pessoa que tem compromisso com sigo próprio e com seu ego, e não com o Brasil”, disse Bolsonaro, referindo-se a Moro.

Bolsonaro também negou que pediu à PF para que ele e sua família fossem “blindados” e que o pronunciamento do ex-juiz federal teve intenção de separar Bolsonaro do povo brasileiro. “Sempre tive ao meu lado o povo. Essa pessoa vai buscar colocar uma cunha entre eu e povo brasileiro”, completou o presidente.

Apesar de negar interferência, Bolsonaro disse que já reclamou ao ex-ministro que não tinha conhecimento sobre “informações ou relatórios” da PF e que sempre cobrou essa postura de outros órgãos de inteligência governamental, como a Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

“Sempre falei para ele: ‘Moro, eu não tenho informações da PF’. Eu tenho que ter um relatório, em especial das últimas 24h, para bem decidir o bom andamento dessa nação. Quase que implorando informações. Sempre cobrei informações dos demais órgãos de inteligência oficiais do governo, como a Abin”.

Ele lamentou dizendo que a “PF de Moro” preferia investigar o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) ao invés de investigar o atentado no qual recebeu uma facada desferida por Adélio Bispo, em Juiz de Fora (MG), durante a campana eleitoral de 2018.

“A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo”, afirmou ele, em pronunciamento feito no fim da tarde desta sexta-feira (24), no Palácio do Planalto. “Acredito que a vida do presidente da república tem um significado, afinal de contas é um chefe de estado. Isso é interferir na polícia federal?”, completou.

CONHECIMENTO DE INVESTIGAÇÕES
Bolsonaro negou que tenha interesse de uma forma geral nas investigações a cargo da PF, mas ressaltou que buscou sim saber de casos próximos a ele e seus familiares.

“Não são verdadeiras as acusações que eu desejaria saber sobre investigações em andamento. Moro sabe que jamais lhe procurei para interferir nas investigações que estavam sendo realizadas, a não serem aquelas, e aí não via interferência e sim mais como uma súplica, como as do a Adélio, a do porteiro e do meu filho 04”.

O caso do porteiro envolve o depoimento que um funcionário de seu condomínio Vivendas da Barra deu à Polícia Civil do Rio de Janeiro dizendo que o ex-PM Ronnie Lessa, acusado de ser autor da morte de Marielle e do motorista Anderson Gomes, teria interfonado para a casa 58 - onde mora Bolsonaro - e que uma voz semelhante à do presidente teria autorizado a entrada.

“É interferir na PF exigir investigação contra esse porteiro? Ele foi ameaçado? Ele foi subornado? Será que ele sofre das faculdades mentais?”, argumentou o presidente.

Já o caso em que ele cita seu “filho 04”, Renan Bolsonaro, também diz respeito a Ronnie Lessa. Durante as investigações da morte de Marielle, surgiram denúncias dizendo que o filho do presidente teria “namorado” a filha do ex-PM, uma vez que ambos moram no mesmo condomínio.

“Pedi à PF, quase como um ‘por favor’ para que interrogasse o ex-sargento (Ronnie Lessa) A PF fez o seu trabalho, interrogou e está comigo a copia do interrogatório. Ele disse que sua filha mora nos Estados Unidos. Mas eu é que tenho que correr atrás disso, ou é a PF que tem que se interessar? Não é pra me blindar porque não estou em curso em nenhum crime”.

A RESPOSTA DE BOLSONARO
Bolsonaro postou nas redes sociais que faria seu pronunciamento logo após Moro anunciar sua demissão da pasta da Justiça e Segurança Pública. “Hoje às 17h, em coletiva, restabelecerei a verdade sobre a demissão a pedido do Sr. Valeixo, bem como do Sr. Sérgio Moro”, afirmou o presidente em sua conta oficial no Twitter.

Maurício Valeixo, agora ex-comandante da Polícia Federal foi exonerado nas primeiras horas do dia, fato que levou Moro à decisão de deixar o governo, mesmo sendo um dos nomes com mais aprovação entre os apoiadores de Bolsonaro.

O ex-ministro alertou a Bolsonaro de que a troca seria uma interferência política na PF e que o presidente concordou que seria mesmo. “Essa interferência pode levar a relações impróprias entre diretor e superintendentes com o presidente e isso eu não posso concordar”, destacou. A troca de Valeixo seria, para Moro, uma violação da “carta branca” que ele teria recebido de Bolsonaro para que pudesse realizar nomeações nos escalões do Ministério da Justiça.

Moro classificou como “ofensiva” a publicação no Diário Oficial da União da exoneração “a pedido” de Valeixo. Segundo o agora ex-ministro, Valeixo nunca haveria pedido a demissão. Já o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho de Bolsonaro, insistiu que Valeixo pediu demissão e foi exonerado porque queria.

No fim da manhã, Moro também disse que Bolsonaro sinalizou que gostaria de nomear um diretor da PF em que pudesse “ligar, pudesse colher informações e colher relatórios de inteligência”.

“Não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informações, as investigações têm que ser preservadas. Imagine se durante a Lava Jato, os ministros, a ex-presidente Dilma, o ex-presidente Luiz (Inácio Lula da Silva) ficassem ligando para diretores, superintendentes em Curitiba e pedindo informações”.

O ex-juiz fez questão de destacar que nem durante os governos petistas a autonomia da Polícia Federal diante aos outros poderes foi desrespeitada.

PREOCUPAÇÕES COM INQUÉRITOS NO STF
Moro relatou que Bolsonaro disse a ele que teria preocupação com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal, e esse seria um dos motivos para troca de Valeixo do comando da PF. “O presidente informou que tinha preocupação em inquéritos em curso no STF e que a troca na PF seria oportuna por esses motivos. Isso gera grande preocupação”.

Nesta semana, o STF abriu uma investigação para apurar o financiamento de grupos que convocaram manifestações e pediram a volta do AI-5. Na mira desse inquérito, estão alguns deputados federais da base do governo Bolsonaro. O próprio presidente, no entanto, não está arrolado na investigação. (*) Yahoo
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